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NOTA

Por que a chapa da Reitoria não se inscreveu na Consulta Pública?

Data de Publicação: 23/06/2020

Nota conjunta sobre a luta antirracista e a defesa da democracia na UFS

As manifestações e protestos que vêm ocorrendo no Brasil e em diversos países em razão dos repetidos casos de violência policial sobre a população negra, têm colocado o debate do racismo estrutural e a questão racial sob foco da sociedade. Essa, sabemos, é uma discussão importante e crucial para se pensar criticamente a estruturação da sociedade capitalista no Brasil, que tem suas raízes históricas focadas numa lógica de exploração e violência perversa contra a população negra.

A violência estrutural e o racismo se retroalimentam na esfera do cotidiano e subsidiam a manutenção da lógica do capital e, nesse sentido, se expressam de forma evidente em todas as esferas da vida social, encontrando refrações nas instituições públicas, assim como nas universidades. Estas por muitas décadas foram espaços em que se reproduziu a perspectiva de que o acesso à educação era um privilégio da branquitude e que esse privilégio também se estendia à participação na vida universitária, nas instâncias deliberativas e de gestão.

O enfretamento a essa realidade nas universidades tem sido feita paulatinamente à custa de muita luta na direção da sua democratização, uma luta coletiva por reafirmação da sua função social na produção do conhecimento e de pesquisas que respondam às demandas da sociedade; por reafirmação da educação enquanto política pública; por ampliação do acesso, sobretudo, aos estudantes dos extratos sociais mais subalternizados, das mais diversas etnias e gêneros.

Essa democratização perpassa ainda pelas instâncias de poder que tem sido ocupada a décadas, em sua maioria, por homens brancos, cisgêneros e professores (pois os trabalhadores técnico-administrativos são minoria nas instâncias de poder e isso é emblemático). Em uma sociedade desigual e de opressões históricas que se reproduzem nas várias esferas da vida social, é preciso lembrar: REPRESENTATIVIDADE IMPORTA!

A Consulta Pública deflagrada pelas entidades representativas da comunidade acadêmica da UFS em dezembro de 2019 marca um momento histórico para nossa universidade diante de um governo negacionista e anticientificista, que ataca constantemente a educação e os servidores públicos, busca ferir a autonomia universitária e flerta com o fascismo. Para além de representar o respeito à democracia e às tradições que elegeram uma parte dos seus reitores após a redemocratização do país, essa Consulta Pública na UFS tem sido marcada pela pluralidade de ideias e propostas na representação de quatro chapas inscritas, sendo duas delas compostas por mulheres e, entre elas, uma mulher negra.

Assim, ao contrário de textos opinativos acerca desse processo de eleições para Reitoria e Vice-reitoria que convenientemente demonstram esquecimento sobre a representatividade de gênero e etnia que marcam essa Consulta Pública, entendemos a importância que os debates entre as candidaturas, assim como toda a disputa ideológica e política nela envolvida,  tenha possibilitado suscitar o debate e a reflexão entre a comunidade acadêmica que precisa avançar na direção da defesa do antirracismo, como também na luta contra o machismo e Lgbtfobia dentro e fora da universidade.

Diante disso, parece-nos oportunista o artigo de opinião publicado no "JL Política" por colocar a importante discussão da questão racial como recurso narrativo para descredibilizar a Consulta Pública e todo o esforço coletivo daqueles que lutam para garantir a realização de mais um processo democrático na UFS. Assim, há no texto uma clara tentativa de encobrir e endossar as ações antidemocráticas por parte da Reitoria em silenciar a voz da comunidade acadêmica ao buscar que a decisão recaia unicamente aos conselhos superiores, que possui representação não paritária e tem reunião marcada para o dia 15 de julho de 2020. Pior ainda é ver tal argumentação, antidemocrática, se construir sobre um tema tão sério e tão caro às entidades representativas (dos estudantes, professores e técnico-administrativos) que têm feito da luta antirracista uma constante. Defender este golpe já é grave o suficiente. Utilizar para isto uma pauta tão importante, é inaceitável. A pergunta que o autor propositalmente omite, como se fosse algo secundário, é: por que a chapa da Reitoria não se inscreveu na Consulta Pública para debater democraticamente suas ideias com a comunidade acadêmica?

Por duas vezes seguidas esta mesma gestão da Reitoria ofereceu e colaborou administrativamente para a realização da Consulta Pública, como pode ser visto no site oficial da UFS, utilizando-se da plataforma do SigEleição para viabilizar uma parte da votação. O que então está por trás dessa posição da Reitoria em não viabilizar e desrespeitar a conclusão da Consulta Pública?

Talvez alguns indícios dessa questão tenham sido dados no texto a qual citamos, já que indica haver um candidato apoiado pela Reitoria, mas que é inominado, não está inscrito no processo da Consulta Pública e, portanto, sequer colocou-se publicamente e apresentou sua proposta e programa de mandato para apreciação da comunidade acadêmica.

Reside aí, taxativamente, nossa resistência (enquanto entidades representativas dos docentes, técnico-administrativos e estudantes) a tal manobra vergonhosa que vem sendo construída pela Reitoria. Continuaremos defendendo a Consulta Pública e o direito da comunidade acadêmica de manifestar através do voto seu candidato a Reitoria e Vice-reitoria aos conselhos.

Não vai ter golpe! Respeitem a voz da comunidade acadêmica e a tradição democrática da UFS.

A Consulta Pública expressa a representatividade e diversidade que buscamos para nossa universidade!

AAU - ADUFS - APG - DCE - SINTUFS