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JUPIARA: CAMINHOS COLETIVOS DA PEQUENA SERPENTE

Data de Publicação: 04/10/2018

Aproveitando a passagem pelo VIII CONSINTUFS, entre 26 e 28 de setembro de 2018, Jupiara Castro fala sobre sua trajetória, a militância negra e socialista, as batalhas da categoria e os caminhos de uma vida coletiva

São Cristóvão, 28 de setembro de 2018, oito horas e quarenta e dois minutos.  O par de olhos negros e amendoados denunciavam as duas únicas horas de descanso empacados na madrugada em direção à sexta-feira, último dia do 8º Congresso do Sintufs: a insônia congressual dera o ar da graça e ela carregava no corpo os seus sinais. Sintomas que vêm de longe. Jupiara é nome tupi, pequena serpente em português de carne e osso, tal qual a serpente que sustenta sobre o pescoço no momento da entrevista, presente de um antigo colega professor da UERJ. Arroboboi. O prateado da cabeleira alta traduz a altivez de sua estatura miúda, 62 anos de idade empacotados em um metro e sessenta de moral anunciados num assobio rouco e doce, a garganta temperada pelas décadas de militância e a nicotina da Souza Cruz. “A receita é dez cigarros por dia”, ironiza entredentes enquanto a fumaça escorre sobre o rosto duro, mesmo que sereno.  

Jupiara Gonçalves Castro é carioca de Marechal Hermes e radicada em São Paulo há 36 anos. Diferente dos estereótipos desbotados da televisão aberta brasileira, a carioca aparentou se adaptar muito bem à garoa do céu acinzentado. O eixo Rio X São Paulo que se vire em retroalimentar esta rivalidade empastelada, não é problema dela e nosso muito menos. Filha de militar, comunista e babalorixá, Claudionor Esteves Castro pisava em ovos para driblar a curiosidade da filha por sua biblioteca clandestina no auge da ditadura civil-militar. “Eu queria ler aquele livro grosso na sala de casa, daquele barbudo alemão, e meu pai ficava apavorado. Imagina uma criança com um livro de Karl Marx, de dia, em meio à ditadura militar? Era perigoso, poderia chamar atenção da vizinhança, mas eu era curiosa. Foi difícil, mas ele conseguia me desvencilhar”, descontrai.

RAÇA E CLASSE

Já na adolescência ela ingressa no “Partidão”, o PCB, mas se desliga em 1978 por discordar da política da organização e parte para se dedicar à construção do Movimento Negro Unificado (MNU). Nas fileiras do MNU ela é girada para a cidade de São Paulo, para tocar o movimento dentro dos muros da Universidade de São Paulo (USP). “Eu tinha uma tarefa militante, que era levar para a Universidade de São Paulo a discussão étnico-racial, a maior universidade da América Latina, totalmente elitista e racista, fazer o debate de raça e classe. Fui pra estudar, fiz vestibular mas não passei. Daí teve concurso pra técnico-administrativo, passei e fui trabalhar de atendente de Enfermagem no Hospital Universitário. Entrar numa  universidade excludente e racista como a USP não era e ainda não é fácil, mas tarefa dada é tarefa cumprida”, afirma batendo a palma das mãos sobre a coxa.

Empossada no final de 1985, Jupiara passa dá de cara com uma greve da categoria. “Eu não tinha nem três meses de estágio probatório e caí de cabeça na greve. Acho que foi um grande arrependimento da administração não ter me demitido, eles não sabiam o que estava por vir”, gargalha. “A gente organizou uma greve no Hospital Universitário, eu começo a dirigir localmente o Hospital Universitário junto com o companheiro Miranda. Fui diretora de base, e a próxima gestão em 1987 eu entro na direção executiva do sindicato.” A direção do sindicato era composta pela Convergência Socialista, O Trabalho – correntes internas do Partido dos Trabalhadores (PT) - e o grupo CUT Pela Base, mas Jupiara já atuava como independente dentro das fileiras do PT.

Seu primeiro contato com a Fasubra acontece no ano de 1986, quando ocorre a retomada da federação dos setores conservadores. Em 1987, ela ajuda amontar o Grupo de Trabalho de Saúde e Seguridade da federação. Ela participa ativamente da Constituinte de 1988, viveu na carne todo o processo de abertura política em paralelo à derrocada da ditadura civil-militar.” A tomada da federação da mão dos conservadores foi muito importante. Eu não estou falando de reformista, eu não estou falando de recuado pelego, eu estou falando de “reaça”, de gente da direita mesmo”, ressalta.

CHAPA NEGRA NA FASUBRA

Jupiara também destaca o Congresso da Fasubra de 1991, momento em que é apresentado o grupo de negros e negras da categoria em articulação nacional. “Apresentamos uma carta aberta, aprovada por unanimidade, que abria a discussão étnico-racial na federação.” Já no congresso de 1994 a chapa esquentou e não teve pra quem quis. Analisando a estagnação da discussão étnico-racial nos corredores do Congresso da Fasubra, os negros e negras presentes decidem esvaziar o plenário e inscrever uma chapa exclusivamente negra, composta por militantes de diversos coletivos e agremiações, para a disputa da entidade.

“Foi um momento de afirmação e demonstração de força dos negros e negras na federação. Ato contínuo, todas as forças e coletivos vieram dialogar conosco, negociar, estabelecer acordos, e a gente nem precisava negociar com ninguém naquele momento. Deste entendimento nós conseguimos montar uma  coordenação para tocar a questão étnico-racial, além do compromisso de todas as forças que disputavam a Fasubra naquele momento de indicar um militante negro para ocupar esta coordenação, a depender de como ficasse a distribuição política dos cargos. Quem quer que ficasse responsável pela cadeira da coordenação deveria indicar um militante negro para ocupá-la, e assim foi”.

Ao longo das décadas ela ocupou diversos cargos na direção nacional da Fasubra. Atualmente é representante da federação no Conselho Nacional de Saúde (CNS).  

CAMINHOS COLETIVOS

Após três décadas como servidora técnico-administrativa da USP, de atividade militante sindical, negra e comunista no Hospital Universitário, nas fileiras da Fasubra, do compromisso militante dentro do MNU e de parte de herança no Partidão, Jupiara não vacila em reforçar sua trajetória coletiva, além de ressaltar o protagonismo da população negra para outro projeto de sociedade a ser construído.

“A minha passagem pela universidade é coletiva, porque eu não construí este caminho sozinha. Eu não consigo- e nem quero – nos ver enquanto negros e negras apenas nos locais de trabalho. Para pensar o local de trabalho tem que pensar na sociedade, na forma como ela se organiza, tem que pensar qual é a sociedade que nós queremos. Como negros e socialistas, o nosso desafio é ganhar os companheiros de esquerda pra entender qual é o nosso projeto. Apesar de um projeto classista e socialista, ele tem diferenciações pela nossa participação na formação da sociedade brasileira, do nosso lugar no mercado de trabalho. Voltar a rediscutir o protagonismo negro no Brasil para construir uma sociedade socialista.”