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PARIR E LUTAR

AS GESTAÇÕES DE SUZANNE

Data de Publicação: 30/10/2018

São Cristóvão, 24 de outubro de 2018. A quarta-feira cravava exatos trinta dias de retorno às atividades profissionais e sindicais de Suzanne, após seis meses de Licença-Maternidade e duas férias acumuladas. O ar-condicionado da sala de reuniões do Sintufs relutava em fazer o que lhe era devido, para azar e lástima dos corpos judiados de sol e caminhada pela manhã de denúncia, protesto, bandeira, panfletagem e corpo a corpo pelos corredores finos do Campus Aloisio Campos. A paralisação nacional em defesa dos serviços públicos merecia todo o esforço do corpo, mas a quarta-feira seria mais leve se o bendito refrigerador cumprisse integralmente suas prerrogativas. A conversa segue a quente, sem gravador e temperada pela fome que beirava a antessala do almoço, às 10h55 da madrugada.

Suzanne Rezende tem 29 anos, um sorriso encharcado de todos os dentes da boca e um par de olhos grandes que explodem a cada pergunta. Sua trajetória na Universidade Federal de Sergipe coincide com o projeto de expansão precarizada em curso na instituição até o presente momento. Aracajuana, ela passa no vestibular de Química-Licenciatura em 2007, ano em que é aprovado o Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – Reuni do Governo Lula e executado pelo então ministro da Educação, Fernando Haddad, sob forte contestação de parte da comunidade acadêmica. “A gente testemunhou o crescimento da Universidade, o surgimento de todos os Campi e a expansão do Campus São Cristóvão, a ampliação de vagas, mas nada disso acompanhou concurso, projeção de verba, ampliação de estrutura. Mas que expandiu, é fato.”

ENTRE O SONHO E O CHÃO

 Desde que se entende por gente Suzanne cultivava dois sonhos: a maternidade e o magistério. Do segundo ela abriu mão após o quarto Estágio Docência do curso, ao esbarrar na realidade pouco atrativa das salas de aula. Fez mestrado, especialização e não pretendia se descolar do universo da academia, assim foi. Concursada e empossada em 2014, ela é lotada no Laboratório de Farmácia como técnica em Alimentos e Laticínios no Campus de Lagarto, que só é inaugurado oficialmente em 2016. Mais uma vez a expansão, precarizada, expõe suas pernas curtas. Lotada num polo da UAB na Colônia 13, alijada do adicional de insalubridade durante todo o tempo por ausência de perícia em Segurança do Trabalho na instituição, ela trabalha em condições, no mínimo, questionáveis, por dois anos e meio.

Removida para o Laboratório de Nutrição no Campus São Cristóvão em 2016, sua transferência coincide com a participação na chapa da próxima Coordenação Executiva do Sintufs para o biênio 2017-2018. “Nunca tinha militado antes na Universidade, a gente percebeu a necessidade de lutar pelas melhorias das condições de trabalho na gestão de Lucas Gama, foi aí que eu me senti chamada a participar e contribuir. Ajudar na organização da categoria foi um chamado”. Atualmente, ela é Coordenadora de Administração do sindicato.

A GESTÃO E A GESTAÇÃO

Empossada em janeiro de 2017, a luta sindical segue em paralelo aos encaminhamentos de seu segundo sonho. Cento e cinquenta dias depois, nas beiradas de junho, ela comunica aos colegas que Heitor estaria pra chegar. “Foi um rebuliço né, a partir de então eu passei a ficar na retaguarda das ações, evitava estar nos fechamentos, nas atividades de maior enfrentamento, ajudei mais nas atividades administrativas mesmo, que já eram enormes. Mas não deixei de militar e trabalhar , porque gravidez não é doença.” O caminho de uma gestação tranquila, sem maiores percalços, sob a retaguarda da mãe e o companheiro, estava pavimentado. “Não houve qualquer acolhimento por parte da Universidade no meu local de trabalho. Não podia entrar no Laboratório no momento das aulas, porque os reagentes poderiam prejudicar a gestação. Tive uma chefe muito compreensiva, que entendia minha situação, mas senti que a instituição não me acolheu.”

Os pulmões de Heitor se abriram em berro no dia 18 de janeiro de 2018, criança esperta já chega chorando que é pra escapar do primeiro tapa. Parir é verbo que se conjuga no infinitivo. Suzanne havia se planejado para a Odisseia junto ao príncipe de Troia, mas a realidade sempre cobra mais alto. “Acumulei duas férias, esperamos o tempo de estabilizar financeiramente, eu e meu companheiro estávamos seguros, aguardei a aposentadoria e mudança da minha mãe, a remoção para o Campus São Cristóvão, fiz tudo que pude, mas a gente ainda tem uma ideia muito romantizada da maternidade, precisamos pautar a maternidade real.”

MATERNIDADE REAL

Até o ano de 2016 o Auxílio-Creche dos servidores técnico-administrativos da UFS era de R$ 60, valor foi reajustado para R$ 320 na última negociação, mas Suzanne avalia que ainda é irrisório. A Universidade não conta com sala de ordenha para retirada de leite, não há sequer previsão de construção de creche na Universidade.

A Lei nº 8.112, que versa sobre o direito à amamentação, garante apenas uma hora de intervalo, ou dois turnos de 30 minutos, até os seis meses de gestação. “Temos uma lei caduca, porque nós já temos uma Licença-Maternidade de seis meses. E mesmo que tivéssemos a extensão deste prazo, uma hora de prazo para amamentar não dá nem para o traslado, de ir pra casa amamentar, porque não existe creche nos locais de trabalho”.

Sindicalista, taurina e servidora pública federal, Suzanne defende uma política de acolhimento às gestantes, parturientes e puérperas em direção à maternidade real, suas demandas e possibilidades. “O movimento sindical precisa brigar com mais força por estas demandas, eu demorei muito para planejar meu filho e, se quiser ter outro vou demorar mais ainda. Em tempos sombrios como estes que vivemos, de avanço conservador, ser mãe pode não ser uma boa ideia.”

As odisseias de Suzanne seguem em campo aberto, assim como centenas de milhões de mães trabalhadoras Brasil afora. Transformar o estado de coisas para outra vida possível exige parto coletivo.