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PERFIL NOVEMBRO NEGRO

Maruim é logo ali

Data de Publicação: 03/12/2018

Vida e peleja de José Eleutério dos Santos

“Liguei às sete e dezoito, depois às sete e vinte e duas e finalmente às sete e trinta e cinco pra dizer que não dava pra sair da Didática agora pela manhã, a ligação não completava”, a precisão na escala das horas rege a justificativa para o desencontro da entrevista, quem não vacila com os ponteiros não desperdiça qualquer pedaço de vida. A conversa, devidamente remarcada para 15h30 daquela quarta-feira de novembro, tem início às 15h32 na sala que abriga os ex-presidentes do Sintufs, devidamente perfilados em moldura e memória e ensurdecidos pelo tráfego intenso da Avenida Governador João Alves Filho, a mesma que junta  Marechal Rondon e João Bebe Água na rota acidentada em direção à sede de São Cristóvão, entrecortando o Campus Aloisio Campos e o Jardim Rosa Elze em duas bandas de fervor, asfalto e poeira.

José Eleutério dos Santos é um par de óculos, o boné inseparável e uma tala grossa de bigode grisalho. O semblante sisudo não sobrevive a 10 segundos de prosa, o sorriso se abre no compasso dos olhos espremidos por trás das lentes, a fala estridente e direta trata de ir logo avisando. “Eu nunca falei em rádio, em nada disso não. Vou falar o que sei deste jeito aqui que eu tenho”, trato feito. Nascido em 9 de outubro de 1951, no mesmo mês da tomada do Palácio de Inverno pelos bolcheviques russos em Moscou em 1917, na data de nascimento do beatle John Lennon, Zé Maruim é o filho de Eleutério e Jocelina Santos na roda de 17 irmãos que nasceram, 10 que sobreviveram à primeira infância e os 8 que estão entre nós. Relato é vida e sobrevida pelas bandas do Vale do Cotinguiba.

DA SENZALA PRA UFS

Nascido e criado na Rua São Benedito, em Maruim, ele se muda aos seis anos com a família para a Fazenda Nossa Senhora da Conceição, em Santo Amaro das Brotas, para trabalhar com o pai e os irmãos no canavial. “Eu não aprendi a ler porque a escola que a gente frequentava era a da Fazenda, morando na senzala. A mulher do dono da fazenda dava aula pra gente, eu ficava na escola uma semana enquanto meu irmão ia cortar cana com meu pai, na outra semana era meu irmão que ficava na escola e eu ia pra roça.”

As palavras que saltam da boca de Zé Maruim revelam uma formação escravocrata que, nem de longe, cheira a passado. Os locais de moradia de trabalhadores dos canaviais no auge das décadas de 50 e 60 do século XX - ou seja, um mínimo de 60 do fim da “escravatura oficial” – conservam o mesmo termo. “A senzala que a gente chama é na fazenda. Tem o dono que morava naquelas casa assim, e tinha as casa da gente que a gente chamava de senzala. As casa é tipo assim, pegada uma na outra, tudo encostada uma na outra. Daí a gente chamava assim”

Zé trabalhou na Fazenda até os 18 anos, com o pagamento medido por “vara” de cana cortada, recebendo por produção junto com o pai e os irmãos. O primeiro casamento veio aos 15 com uma moça – adolescente, criança – de 13. Não vingou. Vem para Aracaju buscar vaga na Construção Civil e passa um tempo na casa de sua irmã no Bairro América. “Trabalhei um tempo na Construtora Celi como ajudante de pedreiro. Daí vou buscar trabalho na Sergipemóveis, na Rua da Frente, quando me disseram que estava precisando de gente pra serviço na Universidade”.  Contratado no dia 5 de abril de 1976, Zé trabalhou como pedreiro na Prefeitura do Campus, ajudante de pedreiro, carpinteiro e ajudante de pintor, quando finalmente é classificado como “pintor” pelo contrato com a Universidade. Nem todo desespero era moda em 1976, Belchior nem sempre tem razão.

BATENDO MARMITA NA MOCHILA

“A Didática 1 só tinha a base, a gente vinha e ficava num sítio de bananeira lá dentro, não tinha era nada. Só o campo d e futebol que já tinha também”. Ele ficava na base da Universidade, no cruzamento das ruas Lagarto e Maruim, onde funciona atualmente a Fapese, e atravessava a ponte velha que dava acesso ao Conjunto Rosa Elze a pé. “A ponte era muito velha, não aguentava ônibus não. A gente chegava seis, arriava 12, voltava 14h e arriava às 18h. Daí a gente saía correndo da UFS até a Avenida Osvaldo Aranha, onde ficava o DER, pra pegar o carro pra Maruim, com a marmita batendo na mochila”.

Tendo a casa da irmã no Bairro América como referência para endereço, contracheque e demandas mundanas de correios e telégrafos, Zé Maruim afirma que nunca teve interesse em mudar para Aracaju. “Aqui é tudo muito caro, o aluguel não dá, prefiro ficar em Maruim mesmo, que é logo ali”. Quarenta e cinco minutos de ida e volta ao longo de 42 anos de convivência.

DA ASUFS AOS DIAS ATUAIS

Convidado a se filiar na antiga Asufs pelo então presidente Hamilton Apolônio, ele conta dos primeiros anos de associação naquele momento. “A associação era mais festa né, não tinha essa coisa de combate de sindicato, fazia uma atividade aqui, uma atividade ali, e muita festa que eu nunca fui.” Em quatro décadas de filiação à Asufs, transformadas depois em Sintiese (1989) e Sintufs (1995)  Zé Maruim compareceu na primeira festa nos idos de 2014, já na gestão de Lucas Gama. “Eu fui numa festa na gestão d e Lucas e uma nessa gestão. Eu passo o dia todo trabalhando, quando chego em Maruim pra tomar banho e trocar de roupa, deito no sofá e perco a hora, daí nunca dá pra ir”.

Se sempre foi difícil para Zé acompanhar as festas e comemorações do Sintufs, o mesmo não se aplica às ações de enfrentamento e embate sindical. Todos os dias, em todos os atos, Zé é o primeiro a chegar e o último a sair. Nas assembleias da categoria, ele sempre fica responsável pela lista de presença numa disciplina que beira o insuportável mais que necessário. “Se a gente marca quatro da manhã é quatro da manhã. Eu venho de Maruim e logo que chego começo a ligar pros “meninos”. Ligava pra Lucas, hoje ligo pra Bryanne, pra Fábio, só não ligo pra Wagner porque ainda não peguei o telefone dele, mas este ano eu ainda pego. Hoje ascoisas só saem no enfrentamento, tem que brigar pra vida melhorar”. Atualmente ele é coordenador de Cultura, Esporte e Lazer do Sintufs, e comporá a próxima gestão (2019-2020) no mesmo cargo.

“APRENDI A RESPEITAR OS FIGURÕES”

“Eu já vou encaminhar minha aposentaria este ano, já falei com advogado, vai que esse presidente aí queira botar pra arrombar comigo. Aproveitar que tenho idade e tempo de serviço e cair fora logo”. Aos 67 anos de idade e 42 de UFS, Zé Maruim segue preocupado em garantir o tanto que conseguiu com esforço e suor. Dos seis filhos que brotaram dos 3 casamentos em vida, um é motorista, o outro trabalha numa fábrica em Minas Gerais, uma filha trabalha como doméstica em São Paulo, outra é funcionária de supermercado no Rio de Janeiro. Há cinco anos perdeu Josiel, assassinado em condições suspeitas. “Se ele tava metido com o crime eu não sei, sei que era trabalhador, tinha serviço na construtora, tava casado. Mas também sei que polícia não quer saber quem matou pobre, só quando mata rico ou policial é que eles resolvem, quando é com a gente eles fingem que vão atrás, mas não vão.” O mais novo, que é sobrinho de sua esposa e eles "pegaram pra criar", só estuda por enquanto, “ só anda com as amizades boas, os noias não andam com ele não”, faz questão de afirmar.

ZÉ, O PINTOR DO MUNDO

Afastado do trabalho de pintor há mais ou menos uma década, Zé Maruim passou um tempo como auxiliar de escritório na Prefeitura do Campus e atualmente é fiscal de didática. O contato com a tinta estava desenvolvendo uma espécie de intoxicação. Gosta de fazer atividade física na Academia da UFS, nos finais de semana curte jogar conversa fora na Caixa D´Água com os amigos da vizinhança. “Aqui na UFS eu só aprendi duas coisas: a ser pintor e a respeitar os figurões, aqueles que se acham superiores a todo mundo”.

É custoso saber que Zé não decifrará diretamente a meia dúzia de frase e sílaba presente neste relato, mas ele segue lendo o mundo nas ações coletivas do trabalho, do sindicato e da vida com as ferramentas que o mundo lhe deu, a força e a disciplina que não encontramos nem em 100 letrados aboletados em qualquer Departamento ou Colegiado. O menino do canavial, o pedreiro das Didáticas, o pintor que coloriu o reboco e o cimento da educação pública superior sergipana por décadas a fio, o fiscal que garante o ar-condicionado e o Datashow do professor, o homem, trabalhador e o educador coletivo segue resistindo às bravatas de um universo excludente e cheio de si. De Maruim para o resto do mundo, Zé segue batendo marmita transmutando as cores da resistência por outro mundo possível.