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PERFIL NOVEMBRO NEGRO

A última copeira do Campus

Data de Publicação: 06/12/2018

Relatos amor e ódio de Dona Virgínia

O sol do Rosa Elze escaldava forte a última sexta-feira de novembro, nada de novo no front. A chave dá a volta no portão às nove horas e treze minutos, ela já assistia ao chiado na TV da portaria enquanto aguardava o encontro, marcado para nove horas. Treze minutos de atraso não mata ninguém, mas vai saber. “Não não, só tomo em casa”, responde à sinalização para a garrafa topada de café  que Dona Ceia fizera naquela manhã. Quem preparou, coou e serviu litros de cafeína preta em fervura por décadas a fio nos corredores da UFS não dá ousadia a qualquer garrafada de repartição. Melhor em casa, dúvida não há.

“Eu nasci em 53, quantos anos eu tenho mesmo?”, questiona enquanto se ajeita na cadeira de plástico em meio ao salão do Sintufs. O vestido em tom pastel e o colar de madeira constroem o tom solene da conversa, a fala cansada dos 65 anos completados no último dia 24 de novembro – “não teve comemoração, dinheiro tá curto, só teve uma pizza que eu paguei na casa de minha irmã” - seguia a cabeça que pendia suavemente para a direita, pontuando levemente cada frase e período, o par de olhos verdes mirava a frente numa dureza nebulosa, ora pela desconfiança, ora pelo cansaço da vista, ora pela própria natureza do relato. Contas feitas das seis décadas e meia, segue os dados: Maria Virgínia de Almeida Prado nasceu em 24 de novembro de 1953, filha única criada pela tia e 7 primos que considera como irmãos.

PRIMEIRO E ÚLTIMO EMPREGO

Nascida e criada na Rua Elias Gonzaga, antiga Rua Pernambuco, no Bairro 18 do Forte, ela passa uma estadia de seis anos em Salvador com a mãe, retorna aos 12 anos e passa a morar com a tia. Estudou no Colégio Getúlio Vargas, no Costa e Silva, mas larga os estudos ainda na sexta série para ajudar na casa. Sempre atuando nos trabalhos domésticos da casa, seu primeiro emprego com carteira assinada chega aos 25 anos*, quando é contratada como auxiliar de limpeza pela extinta Simal para a Faculdade de Medicina da UFS, no Hospital Cirurgia. Entrava às 7h e saia às 22h, com intervalo para almoço. Saía correndo para não perder a linha “Lourival Baptista” que passava na Avenida Gonçalo Prado Rollemberg em direção ao 18 do Forte. Chegava às 23h30, acordava às 5h. “Sigo neste ritmo até hoje, 5 da manhã eu tô acesa”.

Entre os anos de 1977 e 1981 ela trabalha pelas empresas Simal e CELG, quando o então reitor professor Aloísio Campos, decide criar uma firma própria da Universidade: a Serlim. “Fiz um estágio de 15 dias no prédio da Filosofia, onde hoje é o Ipes. Ia de lá a pé pro 18 do Forte todo dia. Fui contratada porque gostava de trabalhar, não era preguiçosa, daí voltei pro prédio da Medicina”. Dona Virgínia só foi incorporada ao quadro de servidores efetivos em no final da década de 80, passou cerca de uma década contratada por tempo indeterminado. Ela chega a trabalhar em duas edições do Festival de Artes de São Cristóvão (FASC), no Festival de Música Universitária e em diversos concursos de vestibular como auxiliar de limpeza, “ nada no salário, só gratificação mesmo”.

“A RELAÇÃO NUNCA FOI BOA NÃO”

Ela chegou a fazer a limpeza do prédio sozinha por algum tempo, o que acarretava uma sobrecarga de trabalho que viria a cobrar do corpo mais tarde. Das recordações nos tempos do Cirurgia, as percepções do racismo e da distinção de classe está presente. “A relação nunca foi boa não. Porque eu sou preta, feia, nunca me trataram direito não. Sempre fui muito fechada também, não saia abrindo “os beiço” pra qualquer um. Poucos me davam bom dia, seja no Hospital, seja no CCET ou na Reitoria”.

Dos poucos contatos que ela fizera com os estudantes, um agradável exceção.  “Tinha um estudante de Medicina, chamado Marcelo. Não sei agora, se ele ficou metido, este povo que vira doutor a gente nunca sabe, mas foi o primeiro que me tratou igualmente. Era branco, tinha os “cabelo” meio alourado. O primeiro menino que me tratou bem. Quando eu faltava, ele perguntava por mim. Ele puxava meu lenço e saia correndo (risos), eu levava café pra ele escondido, guardava suco pra ele. Os professores não gostavam, mas eu não tava nem aí (rsrsrs)”

A FAXINA, A COPA E AS LESÕES

Transferida para trabalhar no Centro de Ciências Exatas e Tecnologia (CCET), ela passa a acumular funções de limpeza e copa. Exatas 16 garrafas de café pela manhã e 16 garrafas de café pela tarde, além das demandas da limpeza. Um Decreto-Lei do então presidente Sarney impede o duplo-vínculo e ela precisa escolher entre a limpeza e a copa, optou pela última. Os anos de serviço vieram cobrar a fatura da mão direita e as Lesões por Esforço Repetitivo (LER-DORT). Após o descanso de 90 uma cirurgia nos nervos da mão direita, a surpresa: o presidente Fernando Collor havia cortado todas as verbas referentes à Copa. “O Collor cortou o café, eu voltei pra limpeza, mas foi só voltar a trabalhar que a lesão voltou tudo, lá pelos anos 90 e cacetada. E também apareceu pedra no rim”.

Dona Virgínia passou por dias difíceis. Fora de sua função, de volta à limpeza, sentindo dores cada vez mais insuportáveis. “Tentaram me aposentar por invalidez, eu não quis. Não estava inválida, só tinha coisas que não podia mais fazer”. Através de um laudo médico pericial, consegue ser enquadrada para cumprir apenas “serviços leves”. “E diretor de Centro lá sabe o que é serviço leve? Não só ficava no mesmo serviço como me chamava de preguiçosa, dizia que não podia me liberar, que já tinha muita gente que não queria trabalhar. Eu fui atrás dos meus direitos”. E ela foi.

O SINDICATO

Através da intervenção junto à assessoria jurídica do sindicato, Dona Virgínia finalmente é lotada de volta ao seu posto oficial, lá pelos idos dos anos 2000, na Copa Geral da Reitoria.  O serviço melhora, mas ainda há dificuldades. “Às vezes machucava a mão mexendo o café, mas era melhor que nada”. A partir do contato com o Sintufs, ela passa a participar dos comandos locais de greve, dos pneus queimados, dos trancamentos e ações madrugada adentro, das viagens para os atos nacionais. “Nunca fui muito de falar não, mas eu sempre tava lá. Fui pra São Paulo umas duas vezes, a última viagem a gente foi pra porta do MPOG, tava com Lucas ( ex-presidente do Sintufs) e com Gibran (diretor da Fasubra), neste dia teve polícia e tudo mais, Lucas tomou pimenta no olho, eu sempre tava nas “coisa” do sindicato”.  

E não adiantava pressionar, em dia de greve não tinha café pra seu ninguém. “Eu escondia as garrafas de café na época da greve e fechava tudo, não adianta reclamar. Paralisação é paralisação (risos)”.

OS CAMBITOS ESTÃO CANSADOS

O tempo foi passando e os serviços de Copa estavam cada vez mais restritos. As garrafas de café em número cada dia menor, já que cada setor foi providenciando sua própria máquina de café. Até que um determinado dia a resistência da cafeteira principal quebrou e a Universidade não providenciou outra. “Eu que não vou ficar aqui de cara pra cima, eu vou pra casa que os cambitos estão cansados, que eu ganho mais. Quando eu me aposentei, a Copa acabou, eu fui a última copeira do Campus”. Não há mais espaço para café coletivo na departamentalização da vida acadêmica. No dia 4 de setembro de 2016, há poucos dias do impeachment da presidenta Dilma Roussef, Dona Virgínia cumpriu seu último dia de serviço. “Fizeram uma festinha pra mim, o povo lá da comunicação me entrevistou, assim como você tá fazendo agora. Comi, abracei o povo e fui pra casa”.

A rotina de Virginia segue no mesmo pique das 5 horas da manhã. Acorda, toma os remédios para a dor e para os rins, faz o café, cuida da casa e vai passear. Os irmãos e sobrinhos insistem para que ela mude para a Coroa do Meio, para ter mais conforto e companhia, mas ela insiste em seguir pelo 18 do Forte. “Vou não sair da minha casa, meu canto é meu canto.” Ela vem aproveitando a aposentadoria pra viajar e conhecer o mundo. “Já fui pra Gramado, já fui pra Buenos Aires, não vou pro Chorinho do Sindicato porque estarei em Porto de Galinhas. Ia até pra Portugal, mas tá muito caro”.

Mulher, negra, sergipana, servente, copeira, sindicalista e trabalhadora aposentada, Virgínia encerra a conversa contando um sonho recorrente dos últimos anos, entre o sono e a vida. “Minha mãe morreu tem 35 anos, há muitos anos eu tenho tido um sonho de que eu estou numa estrada longa, e no final do sonho eu escuto a voz da minha mãe me dizendo: “ quando esta estrada acabar, eu venho te buscar”, a estrada está cada vez mais curta. Eu continuo onde estou, parto na hora que for”.

*Há uma  imprecisão no relato, no ano de 1977 ela teria 24 anos ao invés de 25, calculando pela data de nascimento. perguntada, ela não soube precisar a data