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“Nadir”: curta-metragem apoiado pelo Sintufs é exibido em Portugal

Data de Publicação: 02/04/2019

Documentário aborda o cotidiano da mestra quilombola do Samba de Pareia Dona Nadir, o filme foi selecionado para o 22º Festival de Cinema Luso Brasileiro

Cartaz:  Calango Design e Comunicação

Imagens: Fernando Correia

 

Pareia da Mussuca para o mundo inteiro ver e ouvir, a arte negra e quilombola pede passagem em meio a uma cinematografia hegemonicamente branca e elitista. O curta-metragem “Nadir”, do documentarista sergipano Fábio Rogério, terá sua primeira exibição no 22º Festival de Cinema Luso Brasileiro, que acontece de 7 a 14 de abril em Santa Maria da Feira, em Portugal. O curta foi um dos 23 filmes selecionados num universo de 500 inscritos.

 

Quinze minutos entre os sonhos, sons e silêncios da Mussuca, povoado remanescente quilombola da cidade de Laranjeiras, no Vale do Cotinguiba sergipano, envolvem o cotidiano de Maria Nadir dos Santos, mulher negra, quilombola e mestra do Samba de Pareia. Dona Nadir aos nem tão íntimos.  

O Sintufs entrou produtor associado do curta, contribuindo no financiamento da finalização da obra. Inédito no Brasil, ainda não há previsão de lançamento do filme em Sergipe, mas o convite para lançamento/exibição da obra na sede do Sintufs está feito e refeito.

“Dona Nadir pertence a uma comunidade quilombola (Mussuca) e queria que esse tema político entrasse de forma orgânica no filme. Não queria um filme panfletário, mas sim político, ou que a política também esteja presente. Queria um documentário com Dona Nadir e não sobre Dona Nadir”, explica Fábio Rogério.

O autor

 Servidor técnico-administrativo da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e militante do Sintufs, atualmente lotado em São Carlos (SP), Fábio Rogério sempre quis fazer um filme sobre Dona Nadir. “Isso já deve ter uns 15 anos. Eu até tinha uma pasta no computador que eu salvava tudo que encontrava sobre Dona Nadir, mas aí a idéia ficou apenas no papel

O curta foi produzido através do Edital de Produção de Obras Audiovisuais Digitais de Curta e Média Metragem da extinta Secretaria de Estado da Cultura de Sergipe (incorporada a Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e da Cultura) juntamente com o Fundo Setorial do Audiovisual da Agência Nacional do Cinema.

 

Acompanhe a entrevista com o documentarista Fábio Rogério

 

Sintufs: Como surgiu a ideia do documentário?

Fábio Rogério: A primeira vez que eu pensei na possibilidade em fazer um documentário foi sobre Dona Nadir. Isso já deve ter uns 15 anos. Eu até tinha uma pasta no computador que eu salvava tudo que encontrava sobre Dona Nadir, mas aí a idéia ficou apenas no papel. Em 2014, com o lançamento do Edital de Audiovisual da Secretaria de Estado da Cultura de Sergipe (atualmente Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e da Cultura) foi a oportunidade de escrever o projeto de documentário sobre Dona Nadir.

Dona Nadir é uma das maiores artistas sergipanas de todos os tempos e não apenas uma das maiores artistas sergipanas do campo da cultura popular. Não podemos reduzir a sua importância apenas para a cultura popular sergipana. Dona Nadir junto com Samba de Pareia da Mussuca rodou o Brasil inteiro nos últimos dois anos fazendo diversas apresentações em todos os estados do Brasil pelo Sonora Brasil, projeto promovido pelo Sesc Nacional. Foram mais de 100 apresentações por todo o país, rodando de um lado para o outro de avião, se hospedando sempre em hotel e todas as apresentações com cachê. Acho pouco provável que algum outro artista sergipano já tenha se apresentado com sua arte em todos os estados do Brasil.

Quando escrevi o projeto do documentário sobre Dona Nadir eu tinha alguns princípios em mente: eu queria fazer um filme bonito, sensorial, pois acho inconcebível um filme sobre uma artista não ser um filme plasticamente belo.Queria um documentário cinematográfico e não uma grande reportagem televisiva. Muitas vezes confundem equivocadamente jornalismo com documentário. Não estou desprezando a importância do jornalismo, mas apenas falando que documentário não é jornalismo. Documentário é cinema.

Queria fazer um filme que abordasse a poética do cotidiano de Dona Nadir. Filmar seu dia a dia, sua rotina, valorizar ações cotidianas.Dona Nadir é artista, mas não queria que o filme focasse apenas na sua vida enquanto artista. Não queria fazer um filme folclórico. Queria quebrar essa imagem “foclorizada” que muitos possuem de Dona Nadir.

Dona Nadir pertence a uma comunidade quilombola (Mussuca) e queria que esse tema político entrasse de forma orgânica no filme. Não queria um filme panfletário, mas sim político, ou que a política também esteja presente. Queria um documentário com Dona Nadir e não sobre Dona Nadir.

Sintufs: Qual a importância de reportar o cotidiano de figuras como Dona Nadir no cenário cultural do país?

Fábio Rogério: O Brasil é um país que possui uma diversidade de povos imensa, mas a produção artística cultural brasileira é dominada por uma classe média/classe alta que quase sempre torna invisível outras representações que não sejam as suas próprias. É preciso romper com essa imagem. É preciso novas representações, novos olhares, novos personagens.

Apesar da total consciência de que o meu filme não terá impacto capaz de provocar nenhuma mudança, fazer um filme sobre Dona Nadir que é uma artista analfabeta, negra, moradora de uma comunidade quilombola é a forma que eu encontro de poder borrar um pouco a imagem oficial desse Brasil branco, racista.

Sintufs:  Quais foram as principais dificuldades em organizar e realizar o filme?

Fábio Rogério: Fazer filme significa trabalhar com algum nível de dificuldade que sempre existirá e quando fazemos documentário estamos lidando com a vida das pessoas, com o tempo real e por mais que um documentário seja uma construção criativa de uma realidade, temos algumas limitações seja de ordem técnica, estética, ética ou financeira. Talvez, a maior dificuldade foi o tempo de produção que acabou se prolongando muito mais do que deveria. Era para ter ficado pronto há muito mais tempo, mas a vida tem o seu próprio tempo.

Sintufs: Como você avalia a relação das organizações sindicais com os agentes culturais de Sergipe e do Brasil?

Fábio Rogério: A relação entre as organizações sindicais e os agentes culturais pode ser interessante para todo mundo, mas nem sempre é fácil, pois conciliar o que os dirigentes sindicais e os artistas pensam sobre arte e política é tarefa árdua. É uma relação quase inexistente. Já tivemos uma maior aproximação entre as organizações sindicais e os agentes culturais, mas hoje está cada vez mais difícil. Talvez, o maior desafio de qualquer sindicato hoje é conseguir sobreviver financeiramente depois dos últimos ataques do governo querendo inviabilizar a existência dos sindicatos no Brasil. Não posso esquecer de mencionar que o Sintufs foi um dos apoiadores do lançamento em Aracaju do meu curta-metragem ‘Operação Cajueiro, um carnaval de torturas’, co-dirigido com Vaneide Dias e Werden Tavares.

Sintufs:  Quando teremos o lançamento do documentário na sede do Sintufs?

Fábio Rogério: Sem previsão. Gostaria de esperar a exibição em algum festival no Brasil para só depois fazer o lançamento do filme em Sergipe. Infelizmente, o circuito de festivais de cinemas é a principal janela de exibição para um curta-metragem e precisamos aproveitá-lo da melhor maneira. O fato de o filme ser inédito no Brasil é um peso que conta para a seleção dos grandes festivais de cinema.

 

Ficha Técnica

Nadir (Sergipe, Documentário, 15 min, 2019)

Sinopse: Um olhar afetivo sobre o cotidiano de Nadir, mestra de cultura popular de uma comunidade quilombola do interior de Sergipe. A música de Nadir e seus silêncios.

Com: Maria Nadir dos Santos, Acrisio dos Santos, Anavantou, Gell do Arrocha e Samba de Pareia da Mussuca.

Roteiro e Direção: Fábio Rogério

Produção: Novos Olhares Filmes

Produção Associada: Contec, Fernanda Nascimento, Sintese e Sintufs

Direção de Produção e Som Direto: Fábio Rogério e Ébano Nunes

Direção de Fotografia e Câmera: Fernando Correia, Moema Pascoini e Victor Balde

Still: Fernando Correia

Montagem: Lu Silva e Fábio Rogério

Mixagem: Alexandre Jardim

Arte: Calango Design e Comunicação

Color Grading: Yellow Bunker

Som Adicional: Leo Airplane e Luiz Oliva

Assistentes de produção: John Lennon, José Antônio, Michaely da Conceição, Nataline Lênia e Sthefany Lênia

Transporte: Anderson Rodrigo, Camila Aquino, Ébano Nunes, Fernando Correia, José Antônio, Rafaela Schneider e Victor Balde

Segurança: Carlos André

Oficinas de produção audiovisual: Fernando Correia, José Wesley, Vanessa Lacerda e Werden Tavares

Certificado de Produto Brasileiro (CPB): Nº B19-000279-00000

Classificação Indicativa emitida pelo Ministério da Justiça: não recomendado para menores de 10 (dez) anos. Contém: Drogas Lícitas.