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15M -PARTE 2

A manifestação sem fim nem começo

Data de Publicação: 16/05/2019

Multidão entre 15 e 20 mil pessoas participam da manifestação unificada pelo Direito à Educação

Por Henrique Maynart (ASCOM/Sintufs)

Assanhado, o formigueiro da Educação sergipana brotou ainda mais enfurecido pelos cantos da Praça General Valadão, marco zero da cidade de Aracaju.  O ponto de fundação da capital sergipana testemunharia mais uma manifestação pública. As ações da Paralisação Nacional da Educação, que tiveram início no trancamento da Universidade Federal de Sergipe (UFS)- Campus São Cristóvão - nas primeiras horas da manhã, escorreriam pelas ruas estreitas do Centro Histórico. “É ou não é piada de salão? Tem dinheiro pra banqueiro mas não tem pra educação”.

Diretamente do Texas, o presidente acabara de afirmar que aquela réstia de gente e gritaria não passava de “um bando de idiotas úteis”. Pois bem, a quarta-feira que rachou o mês de maio em duas bandas de quinzena colocou mais de um milhão de pessoas nas ruas de 220 cidades brasileiras de todos os estados e do Distrito Federal. “Vem, vem, vem pra rua vem, é contra os cortes!”.

O carro de som organizava, com algum esforço, as primeiras falas públicas em meio à maré de bandeira, bateria e cartaz. Pela altura das 15h30, foi lançada a orientação de colocar o formigueiro em movimento em direção à Rua Lagarto. A sopa de siglas das entidades que convocaram a manifestação levantava cada qual sua bandeira: Sintufs, Adufs, Sinasefe, Sintese, Sindipema, CSP-Conlutas, CUT, CTB, UGT, Frente Povo Sem Medo, Frente Brasil Popular. Coletivos de juventude também organizavam grande colunas, como o Coletivo Afronte!, RUA, UJC e Levante Popular da Juventude. “Aiaiaiaiaiaiaiai, Bolsonaro é o Krai”.

Do alto do carro de som era possível enxergar o formigueiro que se apertava, lenta e progressivamente, para caber nas medidas das ruas finas de Aracaju. Já do meio do miolo, não mais se ouvia o carro de som. Cada coluna que garantisse suas intervenções auditivas e visuais. “Unificou, unificou. É estudante junto com trabalhador”.

 Assim foi.

E CHAME GENTE

Os rostos imberbes da manifestação refletiam uma juventude que conhecia as manifestações públicas de rua pela primeira vez. A onda de secundaristas mesclada aos estudantes e trabalhadores da UFS, estudantes do Instituto Federal d e Sergipe (IFS), Colégio de Aplicação, escolas da rede pública estadual e municipais, delegações de outros municípios chegavam em toda parte. Além de Aracaju, outras seis cidades organizaram suas manifestações, com destaque para Itabaiana que colocou mais de mil estudantes da UFS e IFS. “Balbúrdia é cortar dinheiro da educação”.

Os manifestantes passaram pela Avenida Coelho e Campos para dar uma volta no molho de quarteirões que passaria novamente na Praça General Valadão. A reação dos comerciantes variava entre apoio, desdém e hostilidade aberta. Quebrando desta vez para a Rua Arauá, os manifestantes seguiram em direção à Rua Propriá e tabelar junto à Catedral Metropolitana de Aracaju. Quando, entre o miolo e o rabo da manifestação, poderia supor que a manifestação terminaria na borda da Praça Fausto Cardoso, a multidão avança sobre as pedras do Calçadão da João Pessoa e ocupa toda a sua extensão. “Bolsonaro quer derrubar a educação. A educação vai derrubar Bolsonaro”.

Os gritos vinham em forma de jogral, as palavras de ordem ressoavam em ondas sonoras na maré progressiva da juventude. As palavras de ordem se mesclavam  coluna a coluna e algumas ilhas se formavam frente ao continente de cartazes, celulares que registravam tudo e todos, as baterias dos coletivos, os sinalizadores. O sujeito coletivo pulsava para inaugurar a noite que se esparramava pela cidade. “Para barrar a precarização. Greve geral, greve geral na Educação.”

Os idosos que costumam ocupar os bancos do calçadão, sentados estavam, sentados se mantiveram. Trabalhadoras do comércio apoiavam com os dedões estirados, entre o cansaço do fim do dia, a preocupação com o transporte na volta e as reações dos donos do comércio. “Fórmula da água: H20. Fórmula da ignorância: B17”.

ACABOU CHORARE?

O marco, a nascente e a foz. A Praça General Valadão recebeu de volta as milhares de almas revoltadas que cuspiu no meio da tarde em direção ao Centro. Desaguava agora no início da noite batendo exatamente às 6h. As baterias seguiram mesmo após o encerramento, os rostos cansados e as bocas sedentas procuravam os ambulantes espalhados na General Valadão, já cientes da manifestação e aguardando as ações do “Ocupe a Praça”, que ocorre às quartas-feiras.

Ainda no dia 15 de maio, a União Nacional dos Estudantes (UNE) já chamou uma grande manifestação para o dia 30 de maio, para abrir os festejos de junho esquentando as canelas em direção à Greve Geral, prevista para 14 de junho.

Sem fim nem começo, a manifestação unificada rompeu a inércia cotidiana do Centro de Aracaju e, junto às 220 cidades que reuniram um milhão de manifestantes, colocou a Educação no centro do debate. A disputa está lançada e não tem hora pra acabar. Outras multidões estão por vir.